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17 setembro 2008

Fotografia e Autoconhecimento

Workshops Fotografia e autoconhecimento – out 2007
Coordenador: Pedro Karp Vasquez (Brasil)
Neste workshop, Pedro Karp Vasquez, partindo do princípio de que somente aquele que dominar a si mesmo será capaz de encontrar sentido e rumo na vida, propõe uma discussão sobre imagem e autoconhecimento.

Talvez eu tenha levado a sério demais as reflexões do Pedro no do Fórum Latino-americano de Fotografia em outubro de 2007 e praticamente não fotografo há um ano.
Entre os exercícios proposto estavam uma série de auto-retratos e a seleção de cerca de 200 fotos de própria autoria para a posteridade (o restante iria para o lixo).
Alguns colegas do curso queriam saber de técnica e se sentiram um pouco frustrados. Eu? Simplesmente continuei na “onda” do autoconhecimento, aumentei a cota de incenso e procurei “descobrir” a meditação. Fotografia? Não sei, deposite a máquina num canto fui olhar umas cartas de tarô e pensar na simbologia como “linguagem” do inconsciente. Nesse meio tempo, não virei taróloga e nem psicóloga, fui trabalhar na edição de texto e voltei a fazer faculdade, agora no curso de Letras.
A notícia boa foi constatar que depois de James Joyce posso deixar meu fluxo de consciência livre nesses textos - e que Deus ou outra alma boa tenham paciência para seguir meus devaneios.
A má notícia foi que não consegui efetuar a “lição de casa” do Pedro, continuei a utilizar as aspas como uma ironia tola que me acompanha, quando cheguei na médica homeopata descrevendo minhas inquietações mentais, pude antevê-la pegando o telefone e chamando o pessoal da psiquiatria (ri internamente da situação patética que me encontrava)...educadamente, ela me passou umas gotas para tomar, me simpatizei com aquela mulher, ainda crendo que o mesmo não tenha sido recíproco.
Então sai de férias e me recusei a levar a bela Nikon d-80, fui com a câmera do celular, insanidade atestada, desta vez a Ilha do Mel estava belíssima, com luz perfeita e paisagens pra lá de generosas. Horas e horas de caminhada na praia, algumas fotos no celular e a relutância em admitir que a Nikon fazia falta, fiz até uns filminhos...lógico aquela coisa meu “deprê” de fim-de-tarde fria e ondas vindo-e-indo.
Cheguei em São Paulo e lá fui eu para a homeopata, dessa vez cheguei sorrindo, não vestia a camisa social e nem o salto toc-toc, ela me olhou com uma fisionomia menos amedrontada, ainda que tenha me ligado umas três vezes para remarcar a consulta (Será que ela contava com a minha desistência?); falei das férias e da fotografia, creio que minha moral melhorou um pouco, mas que raios a homeopatia tem haver com fotografia? Sei lá, sai com uma penca de exames para fazer.
Emprestei a câmera Sony compacta para uma amiga que foi para o Chile, você leitor ou leitora sabe ... neve e uma criança na viagem ... mas a câmera voltou intacta, sem nenhum arranhão, convencia a amiga a comprar o equipamento, antes porém, talvez por uma questão de apego, me comprometi a fazer uma revisão em uma oficina especializada.
Nesse meio tempo, uma colega de trabalho começou a se interessar por fotografia, indique o site BH para compra de equipamento, emprestei-lhe alguns livros e comecei a dar umas pequenas dicas de composição e blá-blá-blá. A Nikon? Encostada no armário como um violão pedindo para ser tocado.
Os exames médicos resultaram no diagnóstico de uma pequena disfunção hormonal (calma pessoal, não estou na menopausa ainda), alguns remédios, gotinhas e incenso, pronto, o corpo estava salvo, e a alma? Bem fui ver uma exposição de fotos. Ah! Instituto Moreira Sales, fotos respiráveis, uma Marc Ferrez ampliada em papel especial, cerca de 100X80 cm, em tiragem limitadíssima, ao custo de oito mil reais, uma foto de 1898 do Corcovado com nitidez digna das modernas TVs tela plana, fiquei olhando aquela foto e pensando no Marc Ferrez subindo aqueles morros com dois escravos e um laboratório portátil, pois o meu amigo Ferrez fazia isso, armava uma cabana, preparava os químicos e revelava ali no meio da floresta da Tijuca a cena captada na câmera de grande formato ... bom, assim me contaram, mas na hora em que via a foto, nem questionei a veracidade das informações, só mirei aquilo e passei para outros velhos conhecidos como o Farkas, a Alice Brill, o Mascaro e o amado Marcel Gautherot, todos fotógrafos e mestres. Não pude deixar de ter a certeza da minha predileção pelo estilo clássico da fotografia, os modernos que me perdoem (às vezes também sou) mas Cartier Bresson é fundamental.
Então lembrei das aulas do Carlos Moreira e daquela admiração toda pelo mestre francês, lembrei da história que conta que Bresson andava com uma pequena leica e que por ser um dos primeiros modelos de câmera fotográfica de pequeno formato, praticamente era desconhecida das pessoas, isso fazia com que estas agissem com naturalidade sem saber que estavam sendo fotografadas.
Eu acredito que o Bresson acreditava num bailado na hora de fazer as fotos; bailado: você vai pra frente, volta, corre, abaixa, sobe, desce, transpira, sorri e às vezes pisa no pé de alguém.
Bem, ao final da exposição eu estava resolvida, voltaria a fotografar ... e para o retorno com a médica vou levar um livro de fotografia.
Thanks friends.

19 maio 2007

Paraty - Anotações

Uma saída fotográfica envolve imagens e uma porção de idéias. Aqui vão as idéias:

O que mais me agrada em Paraty é o desconforto de seu calçamento irregular. As pedra desniveladas das ruas do centro histórico são um desafio para o equilíbrio dos transeuntes.
Outra percepção convidativa, no entanto nem sempre agradável, são os ”cheiros” da cidade. O olfato se perde nas nuancias entre maresia, peixe frito ou esgoto.
Ambas situações, equilîbrio e olfato, não estariam presentes em quaisquer das fotos que faria.
Enquanto caminhava meus ouvidos furtavam diferentes sotaques, a predominância dos franceses me fazia ironizar e imaginar o sucesso que a novela “Escrava Isaura” teria feito entre eles.
Bom, os sotaques também não seriam transmitidos nas fotos.
O que seria então?
No metrô, ainda em São Paulo, pouco antes de embarcar para Paraty, duas moças me chamaram a atenção: uma pelo corte e cor do cabelo e outra por um calçado amarrado ao lado da mochila; ambas pareciam estrangeiras e prontas para alguma aventura nas terras tupiniquins. O deslumbramento que os estrangeiros tem pelas terras tropicais é algo intrigante. Convivendo com temperaturas baixas e uma vegetação monótona – se comparada a nossa biodiversidade – para o pessoal do hemisfério norte isso aqui é o paraiso, embora o noticiário diga o contrário.
Em uma viagem que fiz para Ilha do Mel, tão importante quanto as fotos que tirei foi a imagem que guardei em minha lembrança de um jovem alemão de pele muito clara e um pouco gordo que maravilhado anotava tudo em uma caderneta. Enquanto ele escrevia eu fotografava, infelizmente jamais saberei o conteúdo descrito ou narrado, talvez, inclusive, eu figurasse como “uma fotógrafa que não parava de fotografar”. O fato é que a natureza não tem nacionalidade e nos humanizamos mais quando rompemos fronteiras com boas intenções, e embora essa afirmação seja refutada facilmente no campo político, aqui a faço com caráter puramente idílico, porém não menos possível, pois quando falamos em arte e expressão humana as possibilidades são infinitas.
Indo para Paraty, esse meu “fascinio pelo fascinio” dos estrangeiros foi novamente surpreendido quando ao terminar de comprar minha passagem, surgiram atrás de mim as estrangeiras do metrô, ou seja, tinhamos o “paraiso” em comum.
“Paraíso”, que como disse, era sujeito a escorregões e aromas desagradáveis. Historicamente tudo pode ser explicado da seguinte maneira: no início do século XVIII, devido às epidemias de cólera e febre amarela, a preocupação com a salubridade fez com que o projeto da vila de Paraty previsse que as ruas fossem feitas com uma leve curvatura para evitar vento encanado (considerado na época um transmissor de doenças), escoar água da chuva e permitir a invasão de marés mais altas como forma natural de manter a cidade limpa. O calçamento de pedras irregulares - conhecido como pé-de-moleque – era para evitar atoleiros em dias de chuva e nuvens de poeiras em tempo ensolarado feitos pelas tropas de mulas, carregadas com ouro ou café. Até 1980 o calçamento de pedras estava alinhado e na mesma altura. Porém, nesse ano, a construção da rede de esgoto promoveu a retirada das pedras e sua recolocação foi toda desnivelada.
A idéia inicial de assepsia da vila é a responsável pelas inúmeras e belas fotos com possas d‘águas refletindo o casario do centro histórico.
A desestabilidade das ruas é quase um incômodo existencial, você se pergunta “por que” e viaja no tempo. No vai e vem das idéias, os olhares vão se formando, existem as fotos “clássicas”: fachadas, a vista do cais para o continente e detalhes de arquitetura; mas um sotaque me chamava para fotos mais “especiais”, eram as paisagens, era tentar ver o incomum. Novamente uma influência da pintura se fez mais forte em meu trabalho, do passeio de escuna ou das manhãs de contra-luz visualizei uma grande tela e possíveis composições e matizes de cores.
No último dia eu tentava fazer uma foto “clássica”: um reflexo do casario no vidro de uma janela, uma senhora francesa interpretou a ação como o desejo de um auto-retrato e se ofereceu em inglês para fazer uma foto minha com minha máquina, achei gentil da parte dela e consenti com a idéia. No dia anterior, um argentino já havia me pedido para tirar uma foto com a máquina dele, retribui o gesto com o mesmo pedido mas como minha máquina e meu retrato. Entre gentilezas, erros e acertos de idiomas Paraty se faz “Paratodos” e os escorregões são superados.

25 abril 2007

Um exercício com as palavras

Bem como disse: aqui é um espaço para texto e imagem.
Tenho algumas fotos do centro mas estou optando por deixar um texto feito ainda agora pouco.
Me lembra o fluxo narrativo da turma do James Joyce - sem nenhuma pretensão.
Acho um texto gostoso para ser escrito, porém nem sempre enquadrado numa leitura impaciente como é o que predomina na internet, é isso: hoje não tem foto, tem texto, um exercício com as palavras:

Ela se jogou de qualquer janela. Tinha como trilha sonora Legião Urbana e Alanais Morissette. Teve que por um instante consultar a grafia no iPod. Era um Adeus . Como o de Silvia Plate, como o de Torquato Neto e como o de Virginia Wolf, mas dessa vez ela não consultaria nenhuma fonte, sairia como sairia. Ela se perdera, do caminho de casa para o trabalho: ouvindo Keane ou outra bobagem. Não, ela não era mais adolescente, só umas doses de vodca, e a lembrança…triste, porém distante. Superada as dores, a janela a convidava, seria o momento do vôo. Lembra daquele crítico que disse que suas fotos eram..., o que é mesmo? Sei Lá…Sem pontuação correta ela prosseguiu, sem acentuação correta ela prosseguiu, mirou a janela e se lançou. Não caiu, não sangrou, apenas imaginou voar, reviu amigos ficou com saudade, pegou o telefone, mas não ligou, afinal quem somos nós depois de tanto tempo passado, depois que abandonamos a pontuação correta, ou depois que as lições corretas aprendidas na escola ficam para trás. Lembrou de um amigo doente, ficou triste, não devia mencioná-lo aqui. Mas quando não mencioná-lo, quando usar a pontuação correta? Quando acertar na pontuação? Quando acerta na escolha da música? Agora ela escuta uma gaita na música da Alanis…E daí? Ela ainda quer voar, mas suicído tá fora de moda, e ela apenas vôa em pensamento e não consegue a atenção para calar suas inquietções. Sim, ela ainda pergunta pra vida, ela não faz cinema, nem é a tal, quer apenas fotografar …"Please speak", agora a Alanis canta, ou ela pensar entender (ou quer entender): "Please speak", mas o inglês não vai além, o inglês é limitado e lhe falta algo, talvez mais uma dose de vodca lhe traga lucidez ou a loucura que ela tenta ocultar. Sim , tentamos ocultar nossa locura diária de banalidades cotidianas, mas ela não quer se tornar amarga. Não, são só desejos potencializados pelo álcool, mas ela detesta esse meio etílico de se expor…Então tudo passa pela exposição, esse deveria ser um espaço para imagens, mas ela não se importa, já é tarde, ela tem sono. Quem revisará o texto? Quem revisa nossa vida? Quem revisa nosso desejo de vôo? Não creio que seja a loucura, ela é por demais libertadora, o que nos revisa constantemente são nossas escolhas…Agora escolho um retaurante natural, com gosto de demagogia e brindo com meus amigos alguma tolice. Mas não quero ser triste ou persimista… agora no iPod ela canta "Ironic". Há coincidências jungianas, e ela pensa em quem terá “saco’ para ler tudo isso. E, sempre que o “ela” aparece, ela joga para a terceira pessoa algo que lhe pesa. Sim, ela leu meia dúzia de livro, mas ainda sonha. Sua expressão escrita é gritante, mas ela ainda canta. Acredita em príncipe encantado ou deveria dizer princesa, mas daí não advém nenhuma dúvida de gêreno, apenas de felicidade. Ela poderia passar a noite divagando, mas o sono a incomoda. Lembra de um rosto e quer amar. Lembra de um sono e não quer acordar. Quer ser conduzida, e hoje em dia isso significa uma atitude muito ativa. Expor-se e desejar ser conduzida para qualquer fogueira. Ela é uma bruxa, lê tarô, mas se perde em qualquer esquina, ela espera pelo próximo evento, quer dizer, ela espera pelo próximo vento que a conduzirá por aquela janela, alta e soberana com a promessa de um vôo eterno.